sexta-feira, 13 de maio de 2011

Desatino

Ouvindo ao longe o clarim
No silêncio atroz da campina
Sente que é chegado o seu fim
É mais uma vida que termina

Um pala todo roto no chão
Mais um jazigo feito na lama
Um corpo, o sabre na mão
É outro herói que se declama

Para cair no esquecimento
No final só mais um soldado
Que lutou a luz do juramento
De morrer se for mandado

Matar, sua única obrigação
O motivo? pouco importava
Sem nenhum dó ou perdão
A lei do mais forte imperava

Hirto lutou e também expirou
A morte é o fim do tormento
Sem pedir clemência tombou
Um suspiro foi seu lamento

Olhos parados, fitos no céu
As estrelas como companhia
O potro ficou pastando ao léu
A imensidão é que se avizinha

Ainda pressente outra estocada
O inimigo confirmando o serviço
Foi a toa, a sorte estava selada
Seu corpo já não tem nenhum viço

Enfim livre vagou pela pradaria
No pensamento trás ainda o medo
Lembrando a dureza da lâmina fria
Só o tempo agora trará seu sossego

Mais um taura assim partiu
Nesse cruel embate sem norte
A querência foi que serviu
De leito sublime da morte

Descomposto

Em minha composição não há metal nobre
Não sou de aço, ferro, alumínio, nem cobre
Sequer da densa madeira, flexível, dobrável
Ou forte e rígida, qual um cedro, inabalável

Sequer da intangibilidade do ar que nos cerca
Ou mesmo o calor do fogo que queima e afeta
Em mim não há a dureza inenarrável da rocha
Ou essa fluidez escorregadia d'água que brota

Não tenho nada dessas características em mim
Superficialmente nem mesmo o tom do carmim
Não trago honra, nem glória, sou somente o pó
Venho dele, para lá um dia sei que volto sem dó

Não pertenço a nenhuma outra categoria, pudera
Sou um reles filho da terra, da inveja, da miséria
Sou revestido de carne, após findar-me é carniça
Por dentro, junto d’ossos, trago a terrível cobiça

Na carne putrefata, pestilenta, fiz minha morada
Próximo d’um jardim repleto inteiramente de nada
Lá vive o pouco juízo que me restou e a esperança
Jaz, ainda, a lembrança do sorriso d’uma criança

Também habita a saudade do tempo que era tudo,
O sol, as estrelas, eu tinha por teto todo o mundo
Hoje, vendo-me assim tão distante do que um dia fui,
Percebo que não sou nada, além da carcaça que ora rui.

Essoutro

Compus um poema que eu não fiz
Compus o poema que, também, não quis
Na vida que era a que eu não tinha
Na vida que nunca foi sequer a minha

Compus, mas não sei nem o porquê
Ficou no tempo que nunca existiu
Perdeu-se no tempo que ninguém viu
Mas estava lá, nem sei se ainda está

Na criança que teimava em teimar
No garoto que pensava ir pro mar
No adulto, que já mais nem pensava
No homem, que sabia como acabava

Na vida, que outra vez nunca vivi
Na vida, que no caminho sei, me perdi
Vou traçando as linhas tais quais
Da vida que não foi nunca, jamais

Viver sem sequer saber bem o porquê
Viver para mais outra vez me perder
Viver para como dantes enlouquecer
Viver se sei, o final é o mesmo, morrer

Se aos poucos na vida se vai finando
Se aos poucos só se acerta se for errando
Se o homem só descansa se estiver labutando
Se os que sairam da terra vão se enterrando

Vivo, ainda, pensando se há no meu viver
Diferença do que fiz e do que quis fazer
Que nunca foi o que pensei que deveria ser
Fui o que quiseram que fosse, sem nem saber

O que hoje sei é que vivo, ainda tentando entender
No fundo da alma o garoto que não deixei crescer
Seus sonhos de ente dos castelos, monstros e heróis
Meu maior pecado foi ele nunca ter visto os arrebóis

Eu querendo ser fui matando o outro, gesto atroz
Por isso o poema que pensava seria, talvez, o meu
Foi dele que dentre a névoa dos castelos se perdeu
Para que eu vivesse, o louco, pouco a pouco, morreu.

Óbolo do barqueiro

Na hora derradeira em que me findar,
A moeda de prata não vou levar.
Pois que ela nem mais existe.
Esse costume há muito não persiste.

Então, como pagar ao barqueiro?
Será que aceita o óbolo em dinheiro?
Talvez mil reais seja o suficiente.
Só gostaria de passar de forma decente.

Será que pagando terei um bom lugar?
Ou cruzo, a nado, ao invés do lago, o mar.
Também, nem importa, a nota estará imunda.
Dessa forma ela é enjoativa, é nauseabunda,

Cheia de cobiça, de avareza, de usura.
Desses que é a sua forma mais pura.
Será que ele aceitará assim mesmo?
Ou ficarei vagando, no Aqueronte, a esmo?

No seu barco me sentirei um intruso,
Levando tanto sentimento confuso.
O pior é querer conservar o corpo perfeito.
Ir ao além, deixando-o sem nenhum defeito,

Só para vê-lo ser carcomido por vermes.
Acaso é, também, somente isso que queres?
Ao invés de deixar que outros sobrevivam!
De dar a vida aos que ainda nela acreditam!

Isso tudo por um mero preconceito banal,
Que os norteia pela vida e até no seu final.
Conceitos assim medíocres e tão antigos
Já deveriam ter sido há muito esquecidos.

Para que servirão os olhos se fechados?
O barqueiro que me guie ao outro lado!
Disso nem se fala, senão, uso uma bengala.
Sem ver a paisagem inda atravesso o lago.

E os pulmões? Acaso ainda respirarei?
Melhor deixá-los n'outro, a isso aspirarei!
Dessa forma levo o peito inflado de orgulho
E a alma carregando um sentimento mais puro.

Tecido, então, é o que menos importa!
De que servirá se é só matéria, e morta.
Agora do coração sim, não levo quase nada.
O orgulho, o egoísmo, a avareza, a ganância!

Esses que a vida toda só tem-me causado ânsia.
Algum desafortunado os receberá como herança.
Só levo sentimentos bons em lugar de coração.
Pago ao Caronte com caridade, paz, compaixão.

Os outros sentimentos que me atormentaram,
Que a vida toda só tristeza e dor causaram.
Esses deixo na terra, a mesma que ao corpo acolhe,
Talvez somente isso já baste para que me console.

Só espero que saiba lidar com toda essa emoção,
Nunca deixa-te dominar, faça bom proveito, irmão!
Ao que receber meus anseios, essa minha agonia,
Deixo, como compensação, o amor pela poesia.

Digladiar

No fragor da luta insana a platéia vibra
É o sangue que jorra aos borbotões
São homens que sustentam-se com fibra
O gládio destroçado entram os leões

Em tempos passados, tão sem razão
Homens morrendo e o clamor da multidão
Os varões abatem-se, tais bestas ferozes
Sem piedade, sem pátria, em embates atrozes

Acreditam numa honra que nunca terão.
É o homem nesta busca por glórias,
Mas que sentido pode haver, ainda lutarão?
E se nenhum fica, de quem são as vitórias?

Quem sempre vence no final é a morte,
Irmã profana da loucura e da desilusão.
Lutar sempre e no final, apesar de ser forte,
Todos encontrarão o mesmo fim, destruição

Depois de cada dia os que restam em vida malsã
Esperam um outro, em que hão de enfrentar a sorte.
Seguindo na sina de viver sem sentido, vida cortesã.
Figurante no palco daqueles que anseiam pela morte.

Se outrora aceitou-se essa insanidade imensa.
De que vale a morte, amargurada e cruel,
Sacrificar sua vida sem razão e sem crença,
Se dos olhos do bravo nunca tirou-se o véu.

A história relata de todos guerreiros o mesmo fim.
Findar-se em desatino na mão do inimigo feroz.
Esse logo encontra o mesmo fenecer, que é de todos nós.
As glórias, malditas, são para sempre dos que ficam.

Como se pode, morrer por glória?
Como se pode, deixar seu nome na história?
Como se pode, finar deixando um corpo roto?
Como se pode, ainda esperar na morte a absolvição?

Que nunca acontecerá, pois morrer é para todos.
Viver sim: é para os bravos, é para os heróis,
Mas escolher morrer para servir é dado aos tolos,
Hoje, ainda acontece o mesmo, mas a morte é outra.

Ela é diária e fina-se o caráter nobre e a honra.
O homem deixa-se seduzir pelo brilho do ouro.
Enterra, antes do invólucro fétido, a sua essência.
O odor nauseabundo é o que exala da virulência.

Que devora toda a matéria sem sentido.
E o homem não vê que a tudo contamina.
Por trás da máscara esconde-se a tirania,
Jamais pensa no que ficará eternamente.

Sacia a ânsia de um corpo doente e febril,
Afeito a matéria para a qual é sempre servil.
Se na Roma a carne era sacrificada e ficava a chama.
Hoje, apaga-se a ela e cultua-se a carne podre e a lama.

Notivago

Noite amiga, que me cobre com seu triste véu.
Tua amplidão é o que desejo e o que sempre me apraz,
No teu silêncio dá-se o encontro do meu eu com a tua paz.
O dia se arrasta triste, pois me faz sentir dele o fel.

Mas ressurges triunfante, cobre com negro manto ao céu.
Posso, outra vez, banhar-me do teu sossego em languidez.
Sentir teus aromas, perceber os espectros transitando ao léu.
Tu que és tão casta quanto a virgem que jamais se desfez.

Que um dia também partiu como tu, sem que nada o impeça.
Ela nunca mais surgirá, pois não tem a tua força e o teu brio.
O que ficará da virgem que não deixou choro nem festa.
Foi-se, sem deixar risos ou lágrimas, tornou o dia sombrio.

Como tu fostes, em outros tempos, por trazeres trevas infindas.
Não sabia-se ao certo se permitirias que houvessem mais dias.
Mesmo assim fui o servo do negro clamor de noites horrendas.
Depus aos teus pés minha vida, entre muitas outras oferendas.

Hoje, deponho-me novamente, não te peço glória nem fortuna.
Peço que ao poeta permita roubar-te um pouco da inspiração.
Também, que a minha alma não abandones jamais à tua escuridão.
Do corpo faça o que te aprouver, pois não há gloria em caixão.

A ventura está em passear pelas tuas orbes infinitas,
Volitar, levemente, pelos ares sentindo tua brisa refrigéria.
Aguardando novos tempos, livre da capa e destas misérias.
Tempo quando seremos um só e voltarei a singrar tuas órbitas.

Hoje, só quero o repouso, que nunca negaste ao justo.
Quero deitar-me sobre tuas estrelas e admirar-te somente.
Ao amanhecer me despeço e espero-te a qualquer custo.
Sei que virás e, mesmo que demores, aguardarei eternamente.

Existências

Quando obscura finda
Uma vã existência
Já pressinto a vinda
Sob nova essência

Da vida de agora
Levo as paixões
Das quais outrora
Não tirei grilhões

Mas continuo ainda
Com nova missão
Na busca infinda
Procuro salvação

Lembro da hora
Que cheguei aqui
Mas deixei de fora
Tudo o que vivi

Cai no esquecimento
O que machuca e dói
Porque o tormento
A nada constrói

Sigo breve e volátil
Aguardando após
Nova oportunidade
Outra vez atroz

Traz o crescimento
Certo e verdadeiro
Abandonar o pensamento
Por demais matreiro

No final do ato
Elevado enfim
Saio do atro
Agora serafim